Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Hilary-Trump, o maior debate, depois de Nixon-Kennedy

HELIO FERNANDES
Em matéria de expectativa, nunca houve nada igual. Mais de 100 milhões de pessoas, pararam literalmente os EUA. As televisões faturaram como acontece nas grandes finais esportivas, transmitidas para todo o país, e até o exterior. A curiosidade principal do debate de hoje, segunda atravessando para a terça, é a diferença, verdadeira disparidade, da personalidade dos dois personagens.
È o primeiro dos 3 debates. Entre a primeira mulher com possibilidade real de ser presidente do país mais importante do mundo. E um bilionário truculento, raivoso, se contradizendo a cada momento, mas com um conhecimento notável de como se comportar na televisão. Já dirigiu e participou durante muito tempo, de um "reality show".

Não tem o mínimo de convicção, é repudiado como "vergonha nacional", mas é aplaudido quando diz que vai levantar muros, expulsar imigrantes, mesmo legítimos. E outros pontos radicais, seguidos por multidões de insensatos. Como ele.

O ex-secretario de estado, Collin Powel também quase candidato a Presidente pelo Partido Republicano, declarou com grande repercussão: "Trump é uma desgraça nacional". Com tudo isso, começaram o debate, empatados tecnicamente. Ela 46 pontos, ele, 44.

Mas haja o que houver neste debate em desenvolvimento, não é nem de longe o maior e o que penetra mais entusiasmadamente na historia do país. Ainda insuperável, o debate Nixon-Kennedy, em 1960. O jornalista Ted Wite, que cobriu a campanha dos dois candidatos, escreveu um livro admirável e elucidativo, com o titulo, "Como se faz um presidente".

Calculou que a audiência foi de 60 milhões, o que proporcionalmente, é maior do que os 100 milhões esperados para hoje, e ainda não divulgados. Nixon era franco favorito, a população muito menor, a televisão ainda se projetava. Mas Nixon era vice presidente da Republica desde 1952(o presidente era o general Eisenhower), Kennedy, senador.

Havia rivalidade, Nixon conservador, Kennedy progressista, apesar do pai ter feito fortuna enorme, contrabandeando bebidas, para a Europa. Mas era politizado, dirigiu e financiou a primeira campanha vitoriosa de Roosevelt a presidente, em 1932. Vitoria que repetiria por mais 3 vezes. Não houve baixaria, os debatedores se respeitaram. Comentaristas importantes, deram a vitoria para Kennedy na TV, e para Nixon no radio, que na época tinha grande audiência.

Explicavam a diferença nos órgãos de comunicação. Kennedy era tido como sedutor, bem apessoado, ótimo para o eleitorado feminino. No radio, pessoalmente invisível, Nixon levava vantagem, pois não era tão destacado fisicamente. Foram para a eleição, com Nixon ainda favorito. Só que Kennedy se elegeu por uma vantagem mínima, mas irrefutável. Votaram 60 milhões de eleitores. Kennedy venceu pela diferença de 120 mil votos, "um quinto de 1 por cento". Inesquecível.

Os EUA divididos, mas seduzidos pelo debate

Às 22 e 5, os sonhos e confiantes candidatos entram no palco, se cumprimentam, apertam as mãos até se abraçam, risonhos e confiantes. Por sorteio, a primeira pergunta cabe a Hilary. Cada pergunta tem 15 minutos para ser respondida. Serão 90 minutos ininterruptos, sem intervenção de ninguém. A não ser o coordenador, jornalista da NBC.

Os primeiros 30 minutos são utilizados para a "garantia de que criarão milhões de empregos". O coordenador que tem poderes totais, quer saber como farão isso. Cada um responde como quer, sem nenhuma base na realidade.

Hilary diz que pode aumentar a divida em até 1 trilhão de dólares, que serão recuperados pelo investimento. Trump diz,"isso é coisa de  político, que atrapalha tudo". De forma surpreendente, o coordenador diz a Trump, "o senhor não apresentou declaração de imposto de renda". Resposta: Estou respondendo a uma grande auditoria. Quando acabar, apresentarei". Levaram tempo discutindo o assunto. ele tenta atingi-la da mesma forma, acusando a adversária de ter pago menos imposto do que devia.

Entrando na bravata, Trump garante, "está na hora dos EUA, ter um presidente que entende de administração. Não quero me gabar, mas esse homem sou eu". Hilary interrompe, dizendo,"o senhor já faliu 6 vezes". Trump não responde, mas tenta trazer Obama para o debate: "Gastamos 6 trilhões de dólares em guerras inúteis. Isso é uma vergonha".

O debate decepciona, 45 minutos decorridos, nenhuma emoção. O publico tenta se manifestar, o coordenador pede silencio, proibido protesto ou aplauso, como explicou no inicio. Continua, ela mais "programática", ele mais "provocador". Como um dos três temas únicos do debate, é segurança, têm que tratar do tão discutido assunto da venda indiscriminada de armas.

Hilary condena o sistema, diz, “a venda de armas tem que ser mais controlada e fiscalizada". Trump, tranquilamente comenta:"Nisso concordo inteiramente com a senhora".

O coordenador, possivelmente com um objetivo, pergunta a Trump: "O senhor acusou o presidente Obama de não ser americano, e depois recuou. Qual a razão?".
Trump não fugiu do assunto: "Prestei um grande serviço ao país, que agora sabe que ele é realmente americano". O mesmo que diz na campanha.

Passam um tempo divagando, até que surge o Estado Islâmico, exigindo resposta. Ele responde, culpando o terrorismo, e acusa o governo Obama de apoiar não abertamente, o Estado Islâmico.

“Hilary afirma que vai usar serviços de Inteligência e Comunicação". Ele interrompe, tenta ser irônico, "ela é a queridinha da mídia". E acrescenta, "Sou muito melhor de temperamento do que a senhora, muitos pensam erradamente a mesma  coisa".

O coordenador avisa, que começará a ultima pergunta, sobre a guerra atômica, e a possibilidade disso acontecer. Dá a palavra a Trump, que começa a responder imediatamente: "A China precisa intervir logo na Coréia do Norte, são ligadíssimos". Continuando no assunto, acusa Obama de “gastar fortunas com um país riquíssimo como a Arábia Saudita”.


Chega ao fim na hora exata, o coordenador, diz que "um dos dois será derrotado", Hilary responde o obvio, "isso é a democracia americana”. O coordenador agradece, convida para o segundo debate, no dia 9 de outubro. Sobre o debate propriamente dito, regras não permitem o nocaute. Podemos ficar num empate por pontos, ou ligeiríssima vantagem para ela. Mas como em 1960, entre Nixon-Kennedy, nada foi decidido. O eleitor manteve suas duvidas, e ao mesmo tempo, o poder de decidir.

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