Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A política, condenada e desmoralizada por ela mesma

HELIO FERNANDES

Os grandes filósofos gregos se fartaram de ensinar: "A política é a arte de governar os povos". Não aprendemos. Gostaria de dizer, "desaprendemos", ficaria implícito que houve um tempo, em que plantamos e colhemos afirmativamente. Nem isso é possível, seria inverdade. Começamos desastradamente, implantando a tão desejada Republica, longe do povo, desprezando-o, abandonando-o, ignorando-o. E permitimos que a Republica nascesse militar, militarista e militarizada.

Alem da vergonha e da falta de credibilidade, o futuro pautado por esse roteiro que logo se constataria desastroso, ruinoso, até chegar onde estamos criminosos. Inicialmente destruímos uma geração maravilhosa, dividida em duas conquistas que foram destruídas, e historicamente não se recuperaram. Os "Abolicionistas", que foram traídos e derrotados, pela "Lei do Ventre Livre", uma prorrogação da escravidão, imposta pelos empresários escravagistas.

Esses lúcidos, atuantes e combativos lutadores contra a escravidão, foram derrotados em 1888, precisamente quando se julgavam vitoriosos. E uma parte favorável á escravidão, e a outra defendendo o preconceito, dominadores até hoje. E não se sabe até quando.

A outra parte dessa pátria combativa, intitulada de "Propagandistas da Republica", iniciou a luta em 1860, pelo sonho que não se concretizaria, Liderados pelo notável Saldanha Marinho, lançaram o jornal diário, "A Republica". A população era mínima, mas o jornal resistiu impavidamente, por 29 anos. Até a madrugada inconseqüente, trágica e contraditória de 15 de novembro de 1889. Histórica, mas que todos gostariam que tivesse outro roteiro, e lógico, outro destino.

Essa República, como disse o próprio Saldanha Marinho, da tribuna do Senado, antes de ser preso pelos arrivistas que tomaram o poder: "Esta não é a Republica dos nossos sonhos". E estendeu as mãos para que fosse algemado. O que aconteceu, diante de um Senado estarrecido. Mesmo que fossem partidários dos generais (depois marechais) Deodoro e Floriano.

56 anos longe do povo, sem voto, eleição, tudo indireto

Foi inacreditável. Deodoro e Floriano se revezaram no poder, até que o primeiro desfechasse um golpe que durou 23 dias. E fosse derrubado pelo segundo, que não cumpriu o que estava determinado na Constituição de 1891, escrita e defendida 
Por Rui Barbosa. Devia convocar eleição direta em 30 dias. Floriano, que se julgava eterno e insubstituível, não cumpriu.

Rui protestou, teve que se exilar para não ser preso. Só voltou em 1895, quando assumiu o primeiro civil, Prudente de Moraes. Um presidente correto, mas sem força para modificar o sistema indireto, que permaneceria até 1945. E que com raras interrupções quase sem autenticidade, duraria até agora. È a glorificação do nada, com um presidente tão indireto quanto os outros. Sem contar as duas ditaduras, uma de 15 anos, outra de 21.

Essa eleição de 1945, a primeira intitulada de direta, não passou de farsa e mistificação. Derrubada a ditadura, afastado o ditador, marcaram logo a data, 33 dias depois. Houve uma previa interna, para saber quem seria o candidato, antecipadamente vitorioso. Apenas 2 nomes: Dutra e Goes Monteiro. O Ministro da Guerra por 8 anos. E o Chefe do Estado Maior do Exercito pelo mesmo período.

O manual não escrito das ditaduras, estabelece: o Ministro da Guerra mantém o presidente no poder. Mas o substitui, obrigatoriamente. Assim, Dutra chegou ao poder, com o apoio do próprio Vargas.

Dutra fez um péssimo governo. Não roubou, da forma como se rouba espalhafatosamente, partir do mensalão e do petrolão. Fez muito pior. Como a guerra envolveu praticamente o mundo inteiro, o Brasil era o grande vendedor, acumulando fortunas para serem pagas depois.

Pela primeira vez na Republica o país, não devia nada. E tinha saldos maravilhosos, para serem recebidos quando acabasse a guerra, o que aconteceu em 1946, com Dutra como Presidente.

Insensato, imprudente, imprevidente, despreparado, arruinou o país. E desinformado, negociou desastradamente com os americanos. Mestres em vender matéria plástica a peso de ouro. E a comprar ouro, pagando preço de matéria plástica. Voltamos a ter divida externa, que agora, de tão alta e servindo para cobrir todos os gastos desnecessários e até necessários, passou a se chamar divida publica. E que em 1988, quando a divida acelerou em alta velocidade, em pleno desgoverno FHC, passei a identificar como IMPAGAVEL. Os dois sentidos da palavra, contraditórios.

Agora, a única saída é a reforma política, seria, profunda, autentica, lúcida e debatida. Não podemos parar a luta contra a corrupção. Mas não podemos acreditar num congresso criminalizado como está, com a politicalha se sobrepondo á política. Temos que voltar ao domínio da Constituição, com "Três Poderes harmônicos e independentes entre si". O que acabou ha muito, por culpa precisamente desses Três Poderes.

Temos que recuperar a confiança na definição sabia e simples de Roosevelt, sobre os Três Poderes: "O Legislativo, legisla. O Executivo, executa. E o Judiciário interpreta, que se o que foi legislado e executado, é constitucional". Se quisermos que existam sempre, apenas dois vencedores, o país e sua comunidade de 204 milhões de habitantes, lembrem do Millor: "Livre pensar é só pensar".

FHC e Lula
Os dois são ex-presidentes. Lula conquistou a vitoria, sem títulos universitários, mas com uma liderança e uma obstinação inimaginável. FHC, na contramão de tudo, com títulos universitários, mas sem liderança, começou a carreira, através de uma suplência de senador, o que é rigorosamente antidemocrático. E ainda mais reprovável, pois "concorreu" em 1978, em plena ditadura.

FHC jamais teria sido presidente, se não tivesse havido o impeachment de Collor. Em 1993, seu mandato de senador, terminando, sabia que não se reelegeria. Presidente então, nem passava pela sua cabeça arrogante. Seu partido, o PSDB, não tinha cacife. Tanto isso é verdade, que mesmo no poder, não conseguiu eleger Serra, apesar da maquina. E nas outras 3 disputas presidenciais, o PSDB sempre massacrado. Serra novamente, Alckmin, Aécio.

Com Itamar no poder, sem reeleição, o vice de Collor resolveu fazer o sucessor, jogou tudo favorecendo FHC. Ministro do Exterior, depois acumulando com a Fazenda, e a maquina acelerada, ei-lo no Planalto. Mas para seu ego monumental, 4 anos era pouco, comprou mais 4. Com vários pedidos de impeachment, foi salvo pelo presidente da Câmara, Michel Temer. Ou seja: o Eduardo Cunha da época, relação e relacionamento que sempre houve.

FHC se esmerou na comparação com Lula, sempre se colocando em posição destacada. O que não correspondia á realidade. Quarta feira, quando Lula foi atacado dura e desabridamente, FHC foi imediatamente para a televisão: "Lamento profundamente, que o ex-presidente esteja passando por essas dificuldades, que atingem sua biografia".

Ele sabe muito bem: haja o que houver a biografia de Lula não será atingida. Enquanto a de FHC, antes, durante e depois de ser presidente, foi construída diante do espelho.

Temer em Nova Iorque

PS- Ontem, segunda, falou fora da ONU. Discurso sobre os refugiados. Com certa veemência, fora do seu estilo, defendeu que os Estados Unidos e os membros da União Européia, "recebam o maior numero deles". Falou em 1 milhão, para vários países, sem citar nenhum.

PS2- Também fugiu do fundamental: a guerra da Síria. Teria marcado uma posição, se responsabilizasse a Rússia, principalmente, e os Estados Unidos, conseqüentemente, pelo fato dessa guerra não acabar.

PS3- È uma tragédia sem comparação, em termos de guerra localizada. Não total, como a primeira mundial, e muito mais devastadora, a segunda.

PS4-Hoje, de acordo com a tradição, o representante do Brasil, abre a Assembléia Geral com um discurso. Inédito na Historia da ONU, a abertura, com discurso de um Presidente do Brasil, não eleito. Também, ninguém espera nada grandioso. 


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