Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Eduardo Cunha volta ás manchetes, mas não á liberdade

HELIO FERNANDES

Está outra vez no noticiário, não como imaginava ou pretendia. Cassado, intimidou e se refugiou no livro, que passou a assustar muita gente, rotineiramente chamado de "documento bomba". Enfrentou muitos problemas e dificuldades, até que revelei: “O livro não sairá este ano, procura um jornalista ou escritor que o ajude". Apesar das propostas financeiramente  generosas, não encontrou. Ficou para 2017.

Sabia que ia ser preso, mas não tão rápido. Passou a mandar recados para os que podiam salva-lo ou sepultá-lo. Manteve contato com Temer, algumas eminências do governo são indicações dele. Também tentou contato com membros da equipe da Lava-Jato, insucesso total. Eu já havia revelado: "Delação de Cunha, nenhuma chance, a não ser que faça revelações milagrosas"

Preso, conheceu o isolamento. Foi tratado como um desconhecido. Até agora não viu nem de longe algum personagem da equipe de Curitiba. Pediu papel, queria retomar a continuação do livro tão temido, não recebeu nem resposta. Visitado duas vezes pela mulher, em 3 horas de conversas, só noticias desagradáveis. E a comunicação de que "as visitas não poderiam ser tão assíduas".

Contatos mesmo, só com advogados, nada mais do que perda de tempo. Até que o próprio ex-presidente da Câmara determinou: "Vamos esperar algum tempo. Se não acontecer nada, mudaremos de tática e de estratégia". Como não aconteceu nada, chamou os advogados de volta, deu as instruções.

Cunha retoma a ofensiva.

Estava tudo escrito, eram varias paginas, separadas. Foi entregando a eles. A primeira continha instruções para os advogados executarem. Todas reivindicações para juízes ou tribunais colegiados. Sempre com a insistência: suspensão dos processos, arquivamento de denuncias, libertação imediata.

Os advogados constataram logo: todos os pedidos seriam imediatamente recusados.  Comentaram: "Nenhum pedido será aceito. Nesse caso, o que fazemos?". Cunha passou a eles outra folha, onde estava o complemento, já redigido: "Se nenhum dos meus pedidos for aceito, quero apresentar minhas testemunhas de defesa, é um direito meu".

Entregou então aos advogados, a ultima folha de papel. Uma lista com 22 nomes. O primeiro, Michel Temer. O segundo Lula, o terceiro, o ex-senador cassado, Delcidio Amaral. Assim até o fim da lista, que os advogados encaminharam, da forma como o prisioneiro determinou. E que surpreendeu toda Brasília política. Muitos, assustados. Outros sem entenderem nada. Mas na verdade, em cada nome, um objetivo determinado, logicamente não esclarecido.

Porque Lula, porque Temer

A primeira perplexidade geral. Qual a razão da inclusão do nome do ex-presidente? Na verdade Cunha não espera muito do depoimento dele. Acredita mesmo que ele fará tudo para não comparecer, não ficaria decepcionado, passaria a imagem de um homem sem rancor, distante do espírito ou sentimento de vingança. Se Lula for depor, não pode prejudicá-lo, é inimigo notório.

A chave de tudo, é a testemunha Michel Temer. Não importa que ele deponha por escrito, prerrogativa que "conquistou" com o trabalho dele, Cunha. O ex-presidente da Câmara, sabe que criou um problema praticamente insolúvel para o presidente indireto.

Não pode negar a intimidade conhecidíssima entre os dois. Principalmente em todas as fases da conspiração parlamentar. Na noite em que foi cassado, trombeteou da tribuna: "Sem a minha participação não teria havido o impeachment". Era desabafo, mas também recado para o futuro. Para Cunha e também para Temer, o futuro é agora.

O presidente indireto, altamente preocupado. Naturalmente compreensível. Tem conversado muito com Moreira Franco, por três motivos. Confia na sua lealdade. Respeita sua competência intelectual e política. Quer saber por que o único nome citado por Cunha para intimidá-lo, é o de Moreira Franco.

O ex-presidente da Câmara ficará muito tempo na prisão. Sabe disso. Mas não pretende ser esquecido. Nem esquecer ninguém.

 Supremo fulmina Renan Calheiros

Não tendo conseguido adiar a sessão. Nem encontrado um Ministro que pedisse vista protelatória, houve o julgamento. E havendo, o resultado teria que ser o que foi. O relator, Marco Aurelio Mello, num voto magistral, não deixou margem à contestação. Apesar da decisão ser subjetiva, faltam apenas 3 meses para acabar seu mandato. Portanto, ele jamais assumirá.

Aconteceram coisas estranhas. Gilmar Mendes e Lewandowski não compareceram. O Ministro Barroso comunicou, "não votarei, por questões pessoais". Na vez de votar, com o placar em 5 a 0 contra, chegou à vez de Dias Toffoli . 

Atrasadíssimo, pediu vista, favorecendo Renan. Só que o decano Celso de Mello, votou depois do pedido de vista. E a sessão foi suspensa em 6 a 0. O presidente indireto e alguns áulicos, festejaram o que não era para festejar. Pois quando a sessão continuar, estará em 6 a 0, e não se modificará.

Impossível deixar de registrar: a "coincidência" de Renan e o Planalto precisarem de um ministro que suspendesse o julgamento. E Dias Toffoli estar á disposição. 

PS- O mais alto tribunal britânico, (Câmara dos Lordes) tomou decisão contraditória e arbitraria. Decidiu que o Parlamento (Câmara dos Comuns) tem que se manifestar na questão da saída da União Européia (UE).

PS2- Isso é um absurdo completo. Foi convocado o referendo. Marcada a data. Realizado e apurado o resultado. Agora vem um tribunal aristocrata, e diz que a decisão do povo não vale. Felizmente a Câmara dos Comuns contestou. E afirmou: "O que vale é o que foi decidido pelo povo".

PS3- O ex-ministro Palocci, da Fazenda e da Casa Civil, agora é réu. A decisão é de ontem, do Juiz Sergio Moro. E não é pelo fato de pertencer ao PT. E sim pela falta de escrúpulos. Dignidade. Credibilidade. È outro que ficará longamente na prisão.

PS4- Renan, sempre falastrão, ontem fugia dos jornalistas. Motivo: não queria explicar a razão do Ministro Dias Toffoli ter sido tão solicito ao pedir vista, adiando um processo que tanto lhe interessava. 


PS5- Durante toda a semana, disse que não acreditava que um Ministro pedisse vista. Esqueci de Toffoli e de Gilmar Mendes, que não compareceu.

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