Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O espetáculo do impeachment, inaceitável. Mas Dilma ganhou de todos

HELIO FERNANDES

O primeiro dia foi surpreendente. Para todos. Adversários. Correligionários. Jornalistas, que normal e incessantemente estavam contra ela. E até para este repórter, desde o principio analisando reiterada e até diariamente e condenando a parcialidade do processo. Jamais acreditei que a usurpação do poder comandada pelo vice, pudesse ser baseada em principio constitucional.

E para completar e complementar a questão, nem passava ou alguma vez passou pela minha imaginação. Acreditar que a então presidente, pudesse ter cometido qualquer crime de responsabilidade. Ou de irresponsabilidade.

O que ninguém esperava ou acreditava: Dona Dilma foi massacrando um por um, sem hostilidade ou animosidade. Com um discurso franco, aberto, sem que em qualquer momento, mostrasse sinais de cansaço. E revelava memória de computador, despejando sobre o adversário, dados sobre a própria vida dele.
Estarrecimento ou assombro geral. E Dona Dilma mostrou mais um elemento, aparentemente desconhecido de todos. Para os mais arrogantes ou pretensiosos, a resposta era mais contundente. Sem baixaria ou agressão pessoal.

O jovem presidenciável Aécio Neves, já derrotado por ela em 2014, Foi descuidado, imprudente e sem cautela, ao desafiá-la com uma pergunta, "sobre o fato dela ter mentido para ganhar a eleição contra ele". Lúcida, irreverente, competente, desmontou o presidente do PSDB.

A câmera de duas TVs, focadas nele, fui acompanhando. Empalidecia, ia mergulhando na cadeira. Quando Dilma terminou, surgiu outro orador, Aécio levantou,foi embora e não voltou mais. Não quis nem olhar para ninguém. Estarrecido. Envergonhado.Constrangido.

O que não aconteceu com Lula e o famoso compositor Chico Buarque. Ficaram horas. Diria que o ex-presidente, compartilhando e concordando com todos, que repetiam a mesma admiração: "Dona Dilma está dando um show, vai derrubando todos que não acreditavam nela".

Chico Buarque mostrou que alem de tudo, é um homem de fibra, caráter e convicção. Neste momento, aparecer em publico defendendo a "presidente afastada", só com muita coragem. Ha anos, o então presidente da Academia, procurou-o, convidando-o para ser "Imortal".

Chico Buarque agradeceu e respondeu: "Não posso entrar para a Academia. Meu pai, junto com Carlos Drummond de Andrade e Gilberto Freyre, publicaram um documento publico, condenando a Academia, por ter recebido por unanimidade, o ditador Getulio Vargas. Afirmaram que jamais entrariam para a Academia".
 E terminou: "Não posso nem pensar em entrar para a Academia". Seu pai, o notável Sergio Buarque de Holanda, foi um dos fundadores do PT.

Depois de condenar Dilma numa televisão, chegou a vez do líder do PSDB, Cássio Cunha Lima, interrogar a presidente afastada. Demagogo, olhou para as galerias onde estavam os favoráveis ao impeachment (as galerias foram divididas), apontou o dedo e blasfemou: "Vou falar para o povo verdadeiro, que é o que está ali". E recitou o mesmo discurso primário de sempre. Foi atrasado pela resposta retumbante de Dona Dilma.

 A senadora Simone Tebet, fez três perguntas a Dona Dilma. A única que ficou sem resposta. Depois, no corredor das entrevistas, falou para uma TV: "Quis ajudar a ex-presidente, ela não entendeu". O repórter quis saber o que perguntara. Resposta: "Se voltasse ao governo, repetiria os mesmos erros?". Isso é irrespondível.

Tenho até certa consideração com a senadora, pelo sobrenome e pelo estado de origem, Mato Grosso. Em fevereiro de 1981, quando a Tribuna da Imprensa foi destruída por vingança, fui depor em Brasília na "Comissão do Terror". O relator, Franco Montoro. O presidente, Ibrahim Tebet, do mesmo estado. E extremamente qualificado. Acho que deve ser parente próxima. E como diz a sabedoria popular, "quem sai aos seus, não degenera".

O discurso mais violento (violentíssimo), foi o de Lindbergh Farias. De tal ordem, que Dona Dilma, com um roteiro inteiramente diferente, agradeceu, e não se alongou. Na verdade, os discursos dos 20 senadores do seu lado, não acrescentaram nada. Ela mesma se encarregou de tudo, acertando a mira para o lado que preferia.

E citou nomes, quando achava que era necessário. Usou o de Eduardo Cunha á vontade. Mas quando, com a maior tranqüilidade, afirmou, "que a culpa de tudo o que está acontecendo é CULPA DE TEMER E CUNHA, o Jaburu estremeceu. O presidente provisório, que estava assistindo a televisão, quase caiu da cadeira. E no mesmo momento, constatou que a sua liderança é inexistente. Queria que respondessem imediatamente. Não encontrou ninguém. Telefonou para Renan Calheiros. O presidente do Senado, registrou o mesmo insucesso.

PS- Pelos cálculos do Ministro Lewandowski, havia pergunta e resposta, até ás 23 horas da segunda feira. 14 horas históricas e indescritíveis.

PS2- Hoje, terça, continuaremos.

Um comentário:

  1. Sr Helio Fernandes: O presidente Collor daria um tapa de luvas no PT se se abstivesse de votar ou fosse a favor da Dª Dilma.

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