Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

RESSACA

FERNANDO CAMARA

A classe política está atordoada até agora, tentando desvendar os motivos que levaram aos resultados de ontem, 2 de outubro. Poucos chegaram perto, por vários motivos que ainda estão sendo digeridos e devem ser explicados com detalhes pelos responsáveis.

Imaginava-se, sim, que o PT sofreria um revés, mas ninguém esperava que fosse tão contundente.  Junto com o PT, os institutos de pesquisa também naufragaram, ao não identificar tendências importantes no comportamento do eleitor. O sempre subestimado eleitor deu um recado heterodoxo à classe política e aos institutos de pesquisa: Basta!

A classe política aguarda ansiosa pela resposta dos institutos para discrepâncias tão evidentes, como as parciais no RJ e SP, entre IBOPE e DATAFOLHA.

O Rio de Janeiro colocou Marcelo Crivella e Marcelo Freixo no segundo turno, dando um basta ao PMDB de Eduardo Paes, Cabral, Pezão, Piciani e Eduardo Cunha. Em face a retumbante rejeição, os candidatos do segundo turno se apressaram em dispensar o apoio político do PMDB, mas aceitam de bom grado os eleitores insatisfeitos da sigla.

No Estado, o resultado é mais ou menos esperado, porém, diante de uma zebra, será no mínimo engraçado observar Marcelo Freixo à frente de uma hipotética negociação da dívida do Estado com os banqueiros: esses imperialistas!

São Paulo superou todas as expectativas, e tirou dos institutos de pesquisa qualquer chance de defesa e cravou Doria no primeiro turno, com esmagadores 53% da preferência dos eleitores.

A vitória acachapante de Doria, por enquanto, continua ludibriando os políticos e institutos de pesquisa. Do ponto de vista do eleitor, não foi uma vitória de Geraldo Alckmin. Foi o basta retumbante ao PT e à toda classe política. Doria ganhou com o elaborado discurso marqueteado apolítico, o empresário bem sucedido e fazedor. Sabemos, entretanto, que tudo não passa de uma estratégia de campanha que soube identificar uma brecha para chegar ao eleitor.

Do ponto de vista político, a vitória de Doria em São Paulo credencia Geraldo Alckmin do PSDB a ocupar a vaga de candidato em 2018, deixando Aécio Neves, mais uma vez, em segundo plano.

O PT ficou com o Acre e com Araraquara de Edinho Silva. É o que sobrou para hoje. Diante de tudo isso, não é de surpreender que até o reduto mais petista do país – São Bernardo do Campo – também deu as costas ao partido. Nem o filho de Lula se reelegeu vereador.
A Baixada Santista, que abriga o maior polo portuário do País, também varreu o petismo de sua história. De Cubatão a Mongaguá. Ali, formou-se o maior polo peessedebista do Estado, praticamente.

Enquanto ainda discutimos a ressaca desse pleito, 2017 entra no radar dos analistas com luz amarela. Isso porque as delações mais contundentes na Operação Lava Jato ainda estão em curso, algumas nem começaram mas podem promover um giro de 180 graus nos prognósticos até agora considerados. É o caso, por exemplo, da delação de Felipe Rocha Parente, Leo Pinheiro e Marcelo Odebrecht. Por enquanto, Romero Jucá e Renan Calheiros estão em banho-maria. Só por enquanto. Chegarão a Temer? Oremos.

As novas regras eleitorais, que tiraram milhões de reais das campanhas, privilegiaram candidatos ligados a grupos religiosos ou que mantêm ligações estreitas com grupos de comunicação (radialistas, por exemplo). A tendência é piorar em 2018.

O novo momento impõe aos políticos muita reflexão. Grupos políticos até então considerados intocáveis estão sendo banidos de seus redutos eleitorais. É o caso, por exemplo, da família Barbalho, no Pará, e a família Garotinho, que foi excluída do pleito no primeiro turno. 

Enquanto isso, o governo federal segue nadando de braçada, conseguindo aprovar suas medidas sem muita dificuldade, se consolidando com um discurso cada vez mais firme.


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