Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ninguém quer conversar com Dilma, principalmente do PMDB e PT.

HELIO FERNANDES

Escrevi ontem, segunda, uma matéria que me levou 3 dias. Tive que conversar com muitas pessoas, quase todas que participaram do inútil e sem conseqüência "conselhão". Pois ontem, logo depois de meio dia, levei horas tentando desfazer o que estava publicado. Vários personagens me contataram. Discordando, mas pouparam o repórter. Um senador informante e amigo de 30 anos, outro mais moço e menos interligado, estavam revoltados.

Massacraram as fontes, não concordavam. Como revelei que um empresário, como gesto de boa vontade, garantiu, "votarei pela CPMF temporária". E ainda explicou, "6 meses deste 2016 e o ano de 2017". Foi violentado verbalmente, "o primeiro empresário que apoiar a CPMF será trucidado em praça publica". 

Ás 3 da tarde, um deputado do PMDB da base, (pediu que identificasse sua posição, os senadores pediram o contrario) falou quase 30 minutos e o repórter só ouvindo. Demoliu a presidente e terminou espantosamente: "Quando vou conversar com ela, tenho vontade de usar repelente, como se ela estivesse com Zica, política, econômica, eleitoral". Inacreditável, tenho visto e ouvido muita barbaridade, mas não igual a essa. 

Tudo isso demonstra a dificuldade quase impossibilidade de haver conciliação, harmonia, pelo menos pausa para alguma votação: "Estou concordando com alguns que me disseram que a melhor solução seria a cassação da chapa Dilma - Temer". Vou retomar os contatos com o TSE.

O destino traiu Dirceu, ou Dirceu traiu o passado que parecia notável.

Apenas reflexões sobre a vida, convicções, resistência a privilégios e generosidades que batem á porta. Só poderia ser mesmo inesperadamente, divagações e reflexões brevíssimas. Meus contatos com Dirceu, foram rapidíssimos. A primeira vez em l983, homenagem na ABI, ao notável Cardeal Evaristo Arns, que resistiu á ditadura, e rezou a emocionante missa de Sétimo Dia pelo assassinato de Herzog. Dirceu me viu, falou, "você está muito bem". 20 segundos.

20 anos depois, em 2004, a secretaria do jornal me avisa: "O Ministro José Dirceu está na linha, quer falar com o senhor". Atendo, só ele fala: "Helio, o governador Requião me diz que estamos praticando discriminação contra a Tribuna. Isso seria uma indignidade, se estamos no Poder, devemos a homens como você, que lutaram bravamente contra a ditadura. Vou tomar providencias". Desligamos.

Três ou quatro dias a cena se repete, "o Ministro está na linha", apenas ele fala: "Helio, estive com o Secretario Gushiken, que me disse, enquanto controlar a publicidade do governo, a Tribuna não publicará um centímetro, não posso fazer nada". Desligamos.

Não contei nada ao governador- senador Requião, embora naquela época nossos contatos fossem praticamente diários. Mas conhecendo bem o personagem, sabia que ele explodiria tudo, até resolver a questão. Nunca mais encontrei ou falei com Dirceu no governo ou fora dele. Não consigo imaginar a razão de Dirceu (e outros) ter mergulhado de cabeça no mensalão e no petrolão. Mas mergulhou. Por que, Dirceu?Seria o sucessor natural de Lula, sem qualquer duvida ou resistência.

80 anos depois, Dilma desmoraliza o nome do grande Pedro Ernesto.

Prefeito do Distrito Federal em 1931, foi o primeiro prefeito eleito em 1932. Notável figura humana, construiu em Vila Isabel o hospital que leva seu nome. Administrado por ele, uma das referencia da época. Quando Vargas sofreu atentado na Rio Petrópolis, (escondido pelos jornais e depois por historiadores) Dona Darcy foi fortemente atingida nas duas pernas, queriam amputá-las. Pedro Ernesto não deixou, resistiu. Dona Darcy foi salva, integralmente.

A revolução comunista de 1935.

Prestes ficou vários anos na União Soviética, veio, viu e não venceu, foi um fracasso completo. Preso em setembro de 1936, Vargas começou a fazer ligações com vários personagens. Um deles, Pedro Ernesto, Socialista puro, como diria 40 anos depois, o Presidente da França, Mitterrand: "Sou socialista, tenho horror aos comunistas, jamais fui ou irei a Moscou".

Vargas sabia muito bem quem era ideologicamente Pedro Ernesto. Mas sabia também que era popularíssimo, candidato mais do que possível para a eleição de 1938. (Que não houve). Mas de qualquer maneira, covardemente mandou prender Pedro Ernesto, em novembro de 1936. A repercussão foi terrível, grandes grupos se formaram protestando contra a prisão.

Osvaldo Aranha, Ministro do Exterior e a figura mais importante do governo, falou pessoalmente com Vargas, que não respondeu nada. Meses depois a proposta indecente. Pedro Ernesto seria solto se escrevesse carta pessoal a Vargas, se comprometendo a abandonar a vida publica e não se candidatar a coisa alguma.

Como recusar?

Pedro Ernesto saiu da prisão, na companhia de Osvaldo Aranha e de Dona Darcy, extraordinária figura. Vargas logo se transformaria em ditador. Agora, por pura incompetência, Dilma enlameia o nome de um personagem, que ela nem sabe quem é.

Acabou o recesso, curiosamente. Lewandowski presidiu a primeira sessão,com criticas duras ao Executivo e Legislativo. Motivo: cortes orçamentários, que atingiram apenas o Judiciário. Passou a palavra ao Procurador Geral. Sentado ao lado de Eduardo Cunha (o cerimonial informou que não havia outro jeito), citou nominalmente os presentes, incluindo Renan Calheiros. Mas ignorou o presidente da Câmara. E fez contundente relatório sobre a Lava jato, com Eduardo Cunha presente, embora não nominado.

Cunha, como era esperado, apresentou o requerimento de contestação do próprio Supremo. Três itens. 1-Quer voto fechado e não aberto. 2-Não aceita chapa única para a Comissão que examinará o impeachment. 3- A maior exigência é sobre o papel do Senado no julgamento do impeachment.

Deve perder as três ponderações. Talvez, quem sabe, o Supremo aceite a chapa avulsa. O processo contra o próprio Cunha, só em março. O Ministro Zavascki vai intimar o acusado. Este tem 10 dias para a defesa. Entregue esta, o Ministro relator redige seu voto (sem prazo), e entrega ao presidente. É marcada então a pauta para o julgamento pelo plenário.

PS- O depoimento de José Dirceu na sexta feira, teve trechos revelados publicamente ontem. Diante do Juiz Federal Sergio Moro, o ex-ministro deixou a impressão de sinceridade. Foi quase uma confissão, embora conduzida com serenidade.

Mas a frase final chega a ser lancinante: "Não consigo aceitar a prisão". Não percebeu antes? Preso aos 20 anos e trocado por um embaixador, estava no roteiro do heroísmo. 40 anos decorridos, no auge e no apogeu, insensatamente praticou suicídio ético, político, moral, voluntariamente desistiu de tudo, até da própria vida. Agora, nem mesmo a liberdade seria uma recompensa. 
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