Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

domingo, 13 de março de 2016

Em 1945 a primeira eleição direta, em 1998 a primeira reeleição.

HELIO FERNANDES

15 de novembro de 1889, madrugada, escura, turva, cinzenta, surgia a tão desejada Republica. Mais anti-republicana, impossível. Nesses 127 anos decorridos aconteceu de tudo, sem exclusão dos fatos inacreditáveis  de agora. Completavam-se 100 anos da Constituição dos EUA e a eleição direta do primeiro presidente, George Washington. Essa Constituição ficou sendo a única e todos os presidentes, eleitos com o voto do povo. (Única exceção: depois do impeachment-renúncia de Nixon, com o vice fora do cargo, assumiu o presidente da Câmara, Gerald Ford. Episodio que pode muito bem se repetir hoje, no Brasil).

Don Pedro Segundo era bem mais republicano do que os militares que assumiram o poder por 15 meses até 25 de fevereiro de 1891. E nesse dia, reconduzidos indiretamente até 1894. Deodoro Presidente, Floriano vice e Ministro da Guerra, comandando o exercito formado para a estranha e mal contada Guerra do Paraguai.

Em 1886, o Imperador pediu ao Primeiro Ministro Ouro Preto, que convidasse Rui Barbosa para Ministro da Justiça. Resposta educada mas imediata de Rui: "Por favor agradeça ao Imperador, mas diga que estou envolvido num movimento que será vitorioso com a sua participação ou com a sua ausência se for necessário". Era a Republica.

Rui concordou em ser Ministro da Fazenda e redigir o ante projeto da Constituição, que relatou como senador. Criou as famosas clausulas "pétreas”. Para ele a mais importante era a alternância no Poder, com o impedimento da reeleição. Em 1894 tomou posse o primeiro civil, Prudente de Moraes. Fez um bom governo, defendendo sempre o interesse nacional.

Em 1896 recebeu um Rotschild, que agressivo e mal educado em falar sobre a dívida externa. (Hoje se chama divida publica). Prudente tocou a campainha, veio um continuo, ordenou: "Leve o senhor até á porta, ele está de saída". Quase no fim do governo, começaram a falar em reeleição, não quis nem conversa, passou o cargo a Campo Salles, indicado pelo Partido Republicano, o único.

Governou exatamente o contrario de Prudente, favorecendo interesses estrangeiros. No segundo ano do mandato foi á Inglaterra. Em Londres andou de carro aberto com outro Rotschild (eram 5 irmaõs), percorreu a Old Bond Street, o centro financeiro da capital. Renovou o contrato da "divida", em condições desvantajosas para o país.

Tentou a reeleição, recusa total. Ninguém foi reeleito, até que surgiu o golpe de 1930, com Vargas 15 anos no poder. Sem eleição e sem vice. Derrubada a ditadura, em 1945, houve a primeira eleição considerada direta. Mas os dois candidatos serviram longamente ao ditador, no arbitrário "estado novo", de 1937 a 45. Dutra Ministro da Guerra 8 anos, foi eleito.

Vargas voltou por pouco tempo. Aí em 1955, direta verdadeira, Juscelino contra Juarez Távora. Eleito, JK quase não tomava posse, governou até o fim. Mais tarde confessaria: "Tentei a reeleição, vi que não dava, abandonei as conversas, lancei minha candidatura para 1965, uma eleição que não houve."

Depois de 29 anos, em 1989 houve outra direta com muita confusão. O surpreendente Collor venceu, ficou pouco tempo.Com o impeachment assumiu o vice Itamar. Como não havia reeleição, seu mandato era de 1ano e 11 meses. Jogou tudo em cima de FHC, senador em fim de mandato. Nomeado logo Ministro da Fazenda, e acumulando a seguir com o do Exterior, e a credibilidade de Itamar, derrotou Lula no primeiro turno.

Mas isso era pouco para tanta ambição. Acabando o mandato, começou logo a cuidar do roteiro da continuação. Rasgou a Constituição liquidou a clausula "pétrea", sem ética e sem caráter na vida publica ou particular, comprou a reeleição á vista, mais 4 anos. 

Essa compra foi caríssima, não se sabia de onde viera tanto dinheiro. A "delação" de Delcídio pode trazer explicações. FHC é fortemente citado, junto com o Vice Temer. Aliás, estiveram juntos no episodio da tentativa de impeachment. FHC foi salvo pelo suplente de deputado, Michel Temer que ocupava a presidência da Câmara. Pode ter sido o Eduardo Cunha da época, também é citado na "delação" do senador. Com ele não acontece nada, vide o caso da infidelidade conjugal. 

A reeleição de Dona Dilma e tudo que vem acontecendo desde a segunda posse tem que ser colocado na conta ambiciosa, ruinosa e tenebrosa de FHC. Sem reeleição, Dilma teria ficado apenas 4 anos. Destruída a "pétrea" tão ciosa para Rui Barbosa, Dona Dilma ficou outros quatro, ninguém sabe o que vai acontecer. Se ela tivesse deixado o governo em 2014, sem reeleição, teria sido uma péssima administração, não a catástrofe sem fim, que paralisou o país. 2014 sem a recondução de Dona Dilma, teria vindo alguém que faria tudo diferente. Ou erraria da mesma forma, mantida a alternância do Poder.

PMDB: a convenção oportunista ou a incerteza

De todas as formulas aventadas ou admitidas, surgiu uma outra que não estava na lista das possibilidades: a não decisão. Resolveram "apenas" a reeleição de Temer.

Está ha 15 anos como presidente do partido, ganhou mais 2. E o novo prazo, a solução dentro de 30 dias, sugestão do próprio vice. No fim de fevereiro inicio de março, o PMDB explodia e Temer praticamente fora do jogo. Mestre em reabilitação individual, chegou no sábado, totalmente vitorioso, silenciou os que na semana passada nem queriam conversa.

Temer implantou esses 30 dias, está convencido que Dona Dilma já terá desaparecido política e eleitoralmente. Tão convencido disso, que posou de conciliador, usando as palavras do Papa Francisco, mas sem citá-lo: "Não devemos levantar muros e sim construir pontes". O Papa atirou em Trump, Temer pretendia atingir quem? De qualquer maneira, 30 dias não é o tempo necessário para a substituição pretendida ou indispensável, não para o PMDB e sim para o vice. A corrida entre o impeachment do Congresso e a cassação pelo TSE não tem ainda final previsível. O primeiro pode favorecer Temer. O segundo atinge os dois.
Aécio Neves fez acordo com Temer. Nos últimos 5 anos, Aécio comemorou aniversario sem nenhum telefonema do vice. Semana passada, ás 11 da noite, já ia dormir, Temer se lembrou , telefonou para o "jovem presidenciável", mandou um abraço entusiasmado.

Ponto final na convenção, ou melhor, em mais uma reeleição de Temer, a sétima para presidir o PMDB. Alem da sua inacreditável capacidade de construir notável carreira, sem voto, sem povo, sem urna, o poder de conquistar personagens como Eduardo Cunha. Nos últimos 20 dias a ligação e a intimidade política entre os dois, insaciável e sem exorbitância.                                                                               

O protesto de ontem, bem maior e visível do que o do ano passado

È mais do que compreensível. De março de 2015 a março deste tenebroso 2016, a mudança foi afrontosa, insuportável e insustentável. A impopularidade de Dona Dilma, do governo, de Lula e do PT é irrefutável. Mas mesmo reconhecendo o fato, bastante contradição. Diversas televisões transmitiram e comentaram mas discordaram. Todos falaram em 14 ou 15 estados e1 Distrito Federal. Como são 27, deviam explicar a ausência de manifestação nos outros 11.

Os números e os cálculos, brigavam entre si. Como a PM informou bem cedo, que não divulgaria boletins, ficava por conta dos organizadores, os mais interessados. Um grande exemplo: falaram que na Avenida Atlântica passaram "entre 700 mil e 1 milhão de pessoas". Tinha muita gente mesmo, mas uma diferença de 300 mil é inaceitável.
Do ponto de vista de segurança, perfeito. Também só havia gente de um lado, não poderia haver conflito. O protesto mais repetido: "Queremos um novo Brasil". Trocar Dilma pelos personagens do segundo e terceiro time não muda coisa alguma. As manifestações revelavam enorme insatisfação, ou como disse o Millor: "Cada vez está sobrando mais mês no meu salário".

Elogios gerais, sem restrições, só para o juiz Sergio Moro e a Lava-Jato. O mais criticado, em vários estados,aparecendo sempre atrás das grades, Eduardo Cunha. Merecidamente. No Palácio, desde cedo, Dona Dilma e vários ministros, acompanhando e comentando. Só que a reação de ontem, inteiramente diferente de março de 2015. A Avenida Paulista tem três quilômetros. Uma bandeira nacional, na horizontal segurada por centenas de pessoas, tinha a metade. Emocionante.

Era protesto, mas também festa. Crianças, idosos, como a Paulista é residencial, todas as sacadas lotadas. Maior público na maior e mais populosa cidade. Começou mais tarde também terminou bem mais tarde. Não quero "inventar ou "chutar", mas era sensacional. Sem exagerar, quero repetir Epitácio Pessoa em 1922: "Quanto trabalho por uma causa inglória".

Às 19 horas a Paulista praticamente vazia. Pouco antes, abrigou 1 milhão e 400 mil pessoas. Também há essa hora, o Alvorada tentava descobrir o que fazer. Esperavam Lula, mas se convenceram, ele não apareceria nesse final de domingo. Arrogante e audacioso, Lula, depois da "coercitiva", chamara os militantes, explicando "agora é guerra". No momento será excelente se conseguir a "paz desarmada", que é o que sobra para os derrotados.


PS- O TSE deve acelerar os trabalhos, e em maio, quando muda a composição do tribunal, determinar a cassação da chapa Dilma - Temer. Será a grande solução, eleição dentro de 90 dias, com o presidente do Supremo, comandando o espetáculo.        .............................................................................................................
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