Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Depois de 30 anos de morte natural, "assassinaram" Tancredo Neves.

HELIO FERNANDES

O blogueiro Wellington Ferraz descobriu ou inventou uma conspiração sobre a morte do quase presidente. Não sei a razão de ter escrito para o repórter se estava tão certo do que escrevera. É bem verdade que ninguém pode estar certo de alguma coisa, baseado em suposições de Maluf ou alegações do general Newton Cruz. Não ia responder, demorei, acabei por resolver destruir essa algaravia verbal e mental, para que outros aventureiros da palavra também surgissem com novas invenções macabras.

Nunca ouvi falar no assunto. Versões mais ou menos razoáveis sobre o assunto surgiram com as mortes de Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubtschek. Ficou mais do que provado que foram mortes naturais. Mas persistiam dois elementos que alimentavam a conspiração. 1- Os três eram os únicos capazes de atingir a presidência se a ditadura terminasse mais cedo. Nesse caso os generais torturadores determinariam a eliminação dos três adversários. Não foi necessário.

Vou mostrar apenas a morte de Carlos Lacerda, que acompanhei muito de perto. As mortes de JK e Jango ocorreram longe, puramente acidentais, sem o menor vestígio de assassinato. Mas alguns malabaristas da palavra se aproveitaram do espaço disponível, tentaram transformar a morte natural numa conspiração.

A morte de Lacerda durou apenas 6 ou 7 horas. Cassado no dia 3 de dezembro de l968, no dia 2 janeiro de 1969 viajou para a Europa. Teve a gentileza de ir se despedir do repórter, de Mario Lago e Osvaldo Peralva que continuávamos presos. Foi direto para Milão, ficou lá 1 ano, voltou depois de 3 anos, se afastou de tudo e de todos, se encastelou na Nova Fronteira, sua fortaleza de conforto e satisfação intelectual. Nesses 3 anos não nos falamos uma vez sequer, nem mesmo pelo telefone. 

A morte de Lacerda.

Num dia de Maio, por volta de 1 da tarde, o ex-governador sentiu uma dor no coração, telefonou, para Letícia, sua mulher, que o apanhou e levou-o para a Casa de Saúde Santa Lucia, a Editora e o hospital em Botafogo. Enquanto os médicos examinavam minuciosamente Lacerda, chegaram seus filhos. Às 7 da noite os médicos deram à boa noticia: "Podem se despedir do governador, ele ficará em Observação, é obrigatório. Quando chegaram em casa, o recado do hospital: voltem imediatamente, o governador está morto. 

Tinha 63 anos, era 1977, jamais consultara um medico, não havia jeito de armar uma conspiração para assassiná-lo. Tão rápido que não consegui me despedir dele.

Quem queria assassinar Tancredo?

Não tinha inimigos nem mesmo entre os generais torturadores. Quando alguns deles organizaram o "golpe de 1961", para que Janio ficasse com plenos poderes o tempo que bem entendesse, não tiveram sucesso. Precisaram fazer acordo com Jango. Propuseram então o Parlamentarismo. Mas não era apenas a única palavra, faltava o complemento: “Parlamentarismo com Tancredo Neves”. Jango aceitou logo, comunicou a Brizola, que esbravejou:" Não aceita, eles não podem fazer nada".Jango mais conciliador, respondeu:"È melhor ficar no Poder, o Tancredo é nosso amigo, foi leal ao doutor Getulio até o fim".

Mas o inimigo de Jango era o próprio Jango. Tancredo era um excelente conselheiro, mas Jango tinha seus próprios objetivos: acabar com o Parlamentarismo. Tancredo desistiu foi embora, Jango usou todo o ano de l962 para criar uma data que Tancredo (e o Brasil inteiro) sabia seria explosivo: um referendo popular para decidir entre Parlamentarismo e Presidencialismo. Repetindo Rui Barbosa, "até as pedras da rua sabiam que ganharia o Presidencialismo". O povão nem sabia o que era Parlamentarismo. Marcado para o dia 6 de janeiro, o Parlamentarismo comparando com a seleção brasileira, perdeu de 7 a 1. Jango tomou posse no mesmo dia, começava o golpe de 64. Não demorou 1 ano.

Uma das primeiras provocações foi à prisão deste repórter. O Ministro da Guerra (ainda não era de Exercito) mandou uma carta "sigilosa e confidencial" para 12 generais, afirmou, "nesses eu confio". Alem de ditatorial, péssimo analista. No mesmo dia, um dos generais mais importantes, Cordeiro de Farias, me deu a carta. Não passou pela minha cabeça a idéia de não publicar o documento. Jango exigiu do Ministro a minha prisão, o que aconteceu no mesmo dia.

Fui o primeiro jornalista a ser julgado pelo Supremo.

Meus advogados, Sobral Pinto, Adauto Cardoso, Evaristo de Moraes Filho, Prado Kelly, Prudente de Moraes, George Tavares, receberam a visita do general Cordeiro, que disse a eles: “quem deu a carta ao Helio fui eu, assumo toda a responsabilidade". Esses advogados me defenderam outras vezes. Em 1967, George Tavares foi a Fernando de Noronha me visitar, autorizado pelo Congresso. 

Eu estava incomunicável, o bravo presidente do Supremo, Ribeiro da Costa, mandou acabar está arbitrariedade. Pude conversar pela primeira vez com os advogados. “Contaram-me a visita do general Cordeiro, respondi simplesmente:” Não conheço esse general, o caso está tendo grande repercussão, deve estar querendo aparecer.

Insistiram, continuei negando, não podia entregar minha fonte. No dia seguinte o general deu entrevista coletiva confessando que o meu informante era ele. 

A repercussão foi enorme. Muitos esperavam que o Ministro pedisse demissão ou fosse demitido, nada aconteceu. Fui absolvido por 5 a 4, libertado, centenas de visitas.

Mas a primeira foi de Tancredo Neves. A segunda de Carlos Lacerda, que quando fui seqüestrado para Fernando de Noronha, escrevia quase que diariamente na Tribuna da Imprensa, criticando duramente a ditadura. Nunca vi Carlos Lacerda tão revoltado, indignado, acusando os golpistas que tinham medo de enfrentar um jornalista, que combatia brava e ostensivamente.

A volta de Tancredo Neves.

Depois que deixou de ser Primeiro Ministro, desapareceu. Em 1960 candidato a governador de Minas, era franco favorito, inesperadamente foi derrotado por Magalhães Pinto. Contou-me: "Helio, eu tinha 80 por cento do PSD que era altamente majoritário". Perguntei o que acontecera, confessou: "José Maria Alckmin. Era do meu partido, resolveu apoiar o candidato da UDN, Magalhães Pinto".

Tancredo logo depois da "experiência" nada agradável com Jango, ficou sem oportunidade. Não podia aceitar nada da ditadura, a oposição completamente desorganizada. Foram 15 anos de isolacionismo, solidão, quase ou praticamente ostracismo. Até que fundou o PP, Partido Popular, se elegeu governador. Voltou com força, a ditadura oficial acabara, o que existia era o grupo comandado pelo Chefe do SNI, que queria mais ditadura.Tancredo me convidou para ser candidato a senador , Brizola já me convidara para disputar pelo PDT. Aceitei o convite de Tancredo, mas as coisas se complicaram para o regime.

Surgem às diretas já, estamos nas vésperas da eleição indireta de 1985, mas as diretas  de 1984 apresentam grande força. Só que são "desapoiados" pelos maiores jornais e televisões, que preferem "governadores” entre aspas. Nos bastidores,

Tancredo e Ulisses, grandes amigos mas adversários, fecham um acordo de cavalheiros. Se as diretas passarem o candidato será Ulisses. Se for indireta, Tancredo disputará. “A direta perde por 24 votos, analistas escrevem: ”A derrota das diretas, sorte para as instituições, os generais não permitiriam que o povo amaldiçoasse o golpe, e pelo voto".

Quem queria assassinar Tancredo?

Ninguém. Morte natural não existe no dicionário de Tancredo. Aproxima-se o 15 de março de 1985, data da eleição. A eleição fica apenas entre Maluf e Tancredo. O ex-prefeito de São Paulo nem é recebido pelo general Figueiredo. Realizada a eleição, vitoria estrondosa de Tancredo, Maluf teve apenas os votos "comprados” ou "coordenados" e mais os 3 do PT, que votaram em Tancredo e foram expulsos.
Este repórter dá um jantar para Tancredo, 200 pessoas, quem era quem estava lá.

Caiu um temporal por volta das duas da manhã, a euforia e alegria de Tancredo, tão grande, gostaria de gozar o temporal.  Começou a organizar o ministério, o primeiro indicado e não implantado. Fui a Brasília na véspera não podia deixar de ir á posse de Tancredo. Fui ao Senado, encontrei José Sarney, fomos tomar café, perguntei, "preparado?". Respondeu, "vice é apenas vice." Falei, "não é o que conta a historia do Brasil". No dia seguinte, estive com Tancredo na porta da Igreja, muita alegria e saúde. Voltei para o hotel, iria jantar com Paulo Branco, Editor da Tribuna e assessor de Dornelles, que seria ministro da Fazenda de Tancredo.

Lição para quem quer adivinhar o que acontecerá em 2018.

Faltam praticamente 3 anos, fazem as maiores suposições, indagações, interlocuções. Pois em 1985, em menos de 1 hora, tudo mudou. Em vez de um restaurante, estávamos no gabinete de Dornelles com umas dez pessoas. Alguns falavam que o Doutor Ulisses devia assumir. Só este repórter e o general Leônidas Pires Gonçalves, que seria Ministro da Guerra, sabíamos que Sarney tinha que assumir. O general, surprendendo a todos, tirou uma Constituição, mostrou que o empossado teria que ser Sarney. O que aconteceu.

No blog que me exigiram que explicasse, não ha uma linha correta. Em determinado momento, diz que Tancredo foi levado para o hospital já morto. Insinua que na Igreja se ouviu um tiro, que teria matado Tancredo. Depois fala nos 40 dias de sofrimento.

Na noite seguinte, jantar de gala da posse, agora presidido por Sarney.  Quando me viu, deixou a presidência, perguntou, "ontem você sabia, e não me disse nada”. Eu não sabia, mas não quis quebrar o silencio. Podem perguntar a Sarney, que naquele momento, não tinha a menor idéia de que seria presidente por 5 anos. 
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