Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

UM ANO DE TEMPESTADES

FERNANDO CAMARA
25.02.15

Nunca antes na história desse país um presidente da República começa um segundo mandato com a popularidade tão baixa, a economia repleta de dificuldades e o navio “base aliada” tão avariado. Esse triunvirato de problemas que vão mandar nas atitudes presidenciais daqui para frente levam a presidente a tentar se voltar ao único porto onde é possível recuperar parte do navio e recuperar a capacidade de navegação: o povo que a elegeu.

Dilma deverá, daqui para frente, viajar mais, visitar mais obras, agir como Lula em 2005, ano em que, abalroado pelo mensalão, ele foi às ruas buscar combustível. Readquiriu velocidade, refez a base e, um ano depois, estava reeleito.

A diferença entre Dilma e Lula é a de que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha a economia a seu favor. Dilma não tem essa vantagem. Portanto, vai para a rua dizer o quê? Que está tudo bem quando seus eleitores vêem o preço da gasolina subir, e com ele todo o resto? Difícil missão.

Se não recuperar as ruas, Dilma terá problemas em tirar os problemas políticos de cena. Primeiramente, os petistas e aliados do governo contam os dias para abandonar o ministro Joaquim Levy. Os aliados anseiam por cargos de segundo escalão que Dilma não deseja ceder. Para completar, a presidente “ouve” sempre os mesmos, batizados informalmente de “sexteto 9h30”, pro causa do horário da reunião: Aloizio Mercadante, Miguel Rossetto, Pepe Vargas, Ricardo Berzoini, Jaques Wagner e José Eduardo Cardozo. Todos do PT. Ou seja, não tem visão de fora.

Foi desse grupo que partiu a primeira fala da presidente sobre o escândalo da Petrobras este ano, onde ela tentou estabelecer 1996 como o marco zero da corrupção na empresa, colocando a culpa da não-investigação no colo dos tucanos. Poderia funcionar se o PT não estivesse no poder há 12 anos e dois meses.

Dilma se viu obrigada a sair da toca, em especial, depois que Cardozo ficou sob os holofotes por causa do encontro com advogados. Errou em não ter sido claro logo de saída. Se no primeiro dia tivesse respondido, não teria sofrido tanto desgaste. A tendência, entretanto, é o assunto cair no esquecimento, como uma típica “flor do recesso”, aquela que só aparece em tempos de pouca movimentação em Brasília.

Petrobras

O movimento na capital da República volta com tudo, com destaque para a Lava Jato. Em todas as semanas, mesmo durante o Carnaval, volumosas movimentações ilícitas foram denunciadas por autoridades. A metástase no HSBC Suíço mostra que a contaminação irá alcançar outras instituições financeiras e revela a fragilidade da fiscalização. E ainda deixa evidente que, enquanto o mensalão era um escândalo “doméstico”, o Petrolão abala o Brasil aqui e no exterior. Vem aí a divulgação dos políticos envolvidos para colocar mais lenha nessa fogueira.

Paralelamente às investigações em curso, vem a CPI da Câmara, de onde não se espera que saia muita novidade em relação ao que vem sendo divulgado, fruto do trabalho do MPF, PF e do juiz Sério Moro. Ali, entretanto, os políticos terão meios de acessar o que já foi apurado pela Polícia Federal e a Justiça paranaense. A ideia do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, é entregar a relatoria ao PT (o nome indicado é o do deputado Vicente Cândido) e deixar o PMDB com a presidência, a ser ocupada pelo deputado Hugo Motta, de 25 anos. Assim, Cunha pretende buscar uma relação mais cordial com os petistas depois do confronto eleitoral de 1 de fevereiro.

Quanto ao Senado, não houve número de assinaturas suficientes para instalação de uma CPMI. A ausência de número se deveu ao PSB que, num aceno ao governo, decidiu não dar fôlego à investigação no plano do Congresso. O cenário deve se alterar ainda hoje, uma vez que o partido, no final de semana, decidiu apoiar a criação da CPMI.

No Congresso

A opção pelo “não confronto” é mencionada todos os dias pelos peemedebistas. Na Câmara o Líder do PMDB, Leonardo Picciani, repete que não é favorável à discussão o Impeachment. No Senado, o PMDB, abre mão da prioridade de todas as relatorias das MPs, e da Liderança do Governo... Assim o PT ficará com o Poder, e com a responsabilidade de unir a Base para aprovar o que for do interesse do Planalto e o PMDB ficará a vontade para pedir compensações.

No PMDB da Câmara, entretanto, a situação não é pacífica. A disputa pela Liderança, machucou a unidade da bancada, mas ainda não mostrou as feridas. Aguarda-se os próximos movimentos e atitudes do Líder Picciani em direção da reconstrução da bancada e a oportunidade para isso será a composição das comissões permanentes a ser negociada esta semana. 

Ao mesmo tempo em que aguarda a Lava Jato, o PMDB se mostra disposto a demonstrar um gesto de boa vontade em relação à economia. Hoje, à noite, a cúpula do partido janta com o ministro Joaquim Levy. Quer detalhar as medidas que chegarão ao Congresso. Pelo menos nesse quesito, parece que o partido está disposto a ajudar a reparar as avarias no navio da base aliada.


Corrupção
Denúncias seríssimas são expostas em todos os Estados todos os dias. Falta fiscalização ou é “cultural”? Estes atentados a vida democrática trarão consequências...

Inoperância

Se o Governo continuar a se omitir a greve dos caminhoneiros em 8 estados levará o resultado econômico do país a patamares mais complicados. Esta manifestação desta categoria de trabalhadores poder despertar atitudes violentas em proporções inesperadas.

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