Editoria: Helio Fernandes. Subeditoria: Roberto Monteiro Pinho

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

30 ANOS, ESQUECIDOS, DOS DOIS MAIORES ESPETÁCULOS CONTRA A DITADURA. O CHARLIE, MAIS UMA VEZ NÃO CIRCULOU: INTIMIDAÇÃO/ NA DINAMARCA, CARTUNISTAS SÃO AMEAÇADOS.

HELIO FERNANDES
20.02.15

O Ministro da Justiça não podia nem devia receber advogados dos corruptos e corruptores indiciados na Lava-jato. Errou na ação e na complicação. Sua afirmação: “Vou recebê-los sempre, só na ditadura isso não se admite”. Como estava na contramão da ética e da autenticidade, insistiu.

E aí sua situação ficou insustentável, indefensável: mesmo que tivesse todos os advogados do seu lado. Pois o que afirmou é irreversível e justificava a imediata demissão: garantiu, numa frase o futuro da acusação: “Seus clientes serão libertados muito mais rápido do que vocês mesmos imaginam”.

Com isso usaram uma autoridade sem poder, e o Ministro se aproximou perigosamente da mistificação. Pois não tem uma possibilidade em um milhão de influir na libertação dos corruptos e corruptores presos.

Agora a interferência dos advogados. Têm a obrigação incontestável de fazer quase o impossível em nome e no direito dos clientes. Só não podem praticar o desperdício de tempo e de recursos, “apelando” para o Ministro da Justiça. Que não tem nada a ver com o processo.

Na defesa, advogados revelaram apropriadamente e de forma legitima: “Já apelamos para o Supremo, para a Justiça do Paraná”. Perfeito. O processo, no Supremo, está “apenso”, que palavra, ao Ministro Zavaski.

Portanto recorrer a ele, contestar fatos, nenhuma reprovação. E a Justiça Federal do Paraná, (Sergio Moro) é que comanda a ação, “até que outro poder mais alto se alevante”. Que não será de modo algum o Ministro da Justiça. Se nem a presidente conseguiu sequer receber informações (sigilosas) sobre a ação, por que um simples ministro demissível, poderia?

Agora, para terminar, lições de suposta hierarquia, para os advogados, os leitores, menos José Roberto Cardoso, que conhece muito o que cabe a ele e o que não cabe.

Pode parecer estranho, mas o Ministro da Justiça “não manda” na polícia Federal. Não nomeia nem o chefe de Policia. Se tiver bom transito com o presidente, pode indicar um ou dois nomes, o presidente aceita se quiser. Portanto, nada ver.

O mesmo acontece com a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia. O “japonesinho” Shigeaki Ueki presidia a Petrobras na ditadura, começaram rumores fortes sobre seu enriquecimento ilícito. Chegaram ao “presidente” Geisel, que, arrogante tirou Ueki da Petrobras colocou no Ministério das Minas e Energia.

Há mais de 30 anos vive majestosamente rico no Texas mais rico do que os Bush, em petróleo. Os dois ex-presidentes dos EUA.

Há mais outro exemplo de divergência diária: Ministro da Fazenda, presidente do Banco Central, quem manda mais? Nenhum deles, cada um faz o que quer, numa ação que devia ser conjugada. Mas nem o presidente da Republica pode ou consegue interferir.

Maria Bethânia, a cantora da Democracia.

Extraordinária, grande personagem, merece o que coloquei no titulo. Numa entrevista ao jornalista Nelson Sá, relembrou os 50 anos de carreira. Cantou então “Carcará”, um libelo que o público aplaudiu de todas as formas, se incorporou ao seu dia-a-dia.

“Carcará, mais coragem do que homem/Carcará, pega, mata e come!”. Carcará e Maria Bethânia se entrelaçaram de tal maneira, que ela mesma. Foi para a Bahia, ficou um ano, voltou com uma condição: “Não canto mais Carcará”. E explicou: “Só pediam Carcará, não aguentava mais”.

“Opinião”, vocação contra a ditadura.

Ainda em 1965, no mesmo local deslumbrante de civismo e amor pela Liberdade, o grande combate ostensivo e histórico na destruição do espírito arbitrário, atrabiliario e autoritário. Millor e Flavio Rangel escreveram, encenaram e dirigiram o que só poderia receber o titulo que recebeu: “Liberdade! Liberdade!”.

Emocionante na memória e na participação. Dentro do teatro multidão entusiasmada. Do lado de fora, outra multidão que não pudera entrar, reprimida pela violência, presentes mais policiais do que assistentes. O espetáculo maravilhoso quase não podia seguir, o público chorava e aplaudia.

Flavio Rangel escreveu, dirigiu, comandou também a iluminação que acendeu as mentes, almas e corações de todos. Lá do alto de uma escada enorme, Flavio orquestrava tudo, incendiava as luzes um espetáculo para combater a escuridão. E eu ao seu lado, sempre repórter e combatente.

Agora, 50 anos depois, ninguém lembra de nada do que aconteceu. O “Carcará” de Maria Bethânia, só foi lembrado por causa dela, e do espírito indestrutivelmente jornalístico de Nelson Sá.

O “Liberdade! Liberdade!” não ganhou uma linha em jornais, sequer uma citação na televisão. É que o Millor e o Flavio não estão mais aí, foram embora, deixando depois deles apenas o esquecimento. Millor, que eu conheci desde que tinha 15 meses e ele chegava, é uma ausência não apenas familiar, é uma perda para sempre.

Flavio Rangel morreu muito moço, na verdade mocissimo, que saudade, que tristeza, que lembranças. Éramos diários e intransferíveis. Em novembro desse mesmo 1965, fiz na minha casa a primeira reunião, do que depois se chamaria de “Frente Ampla”. Convidei alem do Flavio, o Brigadeiro Teixeira, o ex-ministro Renato Archer, o ex-ministro Wilson Fadul (preso e torturado), o grande editor Enio Silveira.

Marquei, falei para Lacerda, que já não era mais governador; “Vou reunir na minha casa, personagens que já foram adversários”. E perguntei: “Você quer ir?”. Quis saber quem iria, citei os nomes, respondeu: “Vou”. Não falei nada com ninguém, eram convidados á minha casa. Lacerda jamais se estivera com nenhum deles.

Um encontro de mais de seis horas, se repetiria uma semana depois, mas 5 ou 6 na casa de um amigo do Enio no Cosme Velho. Todos encantaram com Lacerda e a recíproca, verdadeira. Geralmente saiamos de madrugada, íamos jantar. Lacerda foi odiado pelos militares com base nesses encontros.

Numa dessas madrugadas num jantar no bistrô, Lacerda falou, aplaudido por todos: “Helio, você está obrigado, como participante e jornalista a ser o Pero Vaz Caminha da Frente Ampla”. No dia seguinte, escrevi o primeiro artigo sobre o assunto. Riscado, rabiscado, e retaliado pelos generais que chamavam o “golpe” de “revolução”.

E que ainda nesse ano, 1966, me cassaram, três dias antes da eleição. E começaram uma perseguição sem fim.

Flavio Rangel iria embora 3 ou 4 anos depois, por que acontecem essas coisas inesperadas e desesperadas? Pelo menos aproveito os 50 anos para lembrar do Flavio e da Liberdade que sempre defendeu, e que tantos esqueceram.

Não lembram dos predecessores do grande combate e dos combatentes contra os censores, perseguidores, torturadores. Flavio e Millor, empolgaram milhares no Teatro e milhões no país todo, pregando a “Liberdade, Liberdade”.

Resposta.

“Uma pessoa morreu no ataque armado no dia 14 de fevereiro contra um centro cultural de Copenhague, onde ocorria um debate sobre o islamismo e a liberdade de expressão. Um homem armado com uma metralhadora disparou contra os participantes do debate "Arte, blasfêmia e liberdade". O evento contava com a presença do cartunista sueco Lars Vilks, autor de polêmicas charges de Maomé. Você escreveu sobre o atentado contra a revista Charlie em Paris. O que me diz desse agora? Ozeas F. de Siqueira – Rio de Janeiro”.

Digo a mesma coisa, Ozeas, quando a intolerância, a violência, e a incompreensão em relação á Liberdade de expressão atinge a comunidade do Brasil, da França, Suécia, Dinamarca. São sempre os mesmos que tentam intimidar e ameaçar os que defendem o direito de dizer e de debater.

Tento defender o direito de todos, desde que se chamava Liberdade de Impressão, quando Gutenberg inventou a primeira máquina de imprimir, e começaram os ataques contra aqueles que faziam jornais de quatro páginas, não informação e sim opinião.

E a Liberdade de Expressão não existia, surgiu quase 400 anos depois, com o aparecimento do telefone, do rádio e do telégrafo sem fio.

Agradeço a você Ozeas, pela oportunidade de escrever sobre o assunto. Resolvi não escrever durante cinco dias, por causa do carnaval. E esse atentado contra o cartunista Lars Vilks, aconteceu precisamente quando aqui para tudo, que não acontece no resto do mundo.
O atentado armado de metralhadora contra num Centro Cultural, não é fato isolado, embora localizado. Não sei se você sabe, mas esses terroristas contra a Liberdade, têm intimidado os cartunistas que sobreviveram o massacre do Charlie.

De Copenhague a Paris não existe nenhuma distancia ou obstáculo para os terroristas. Só que na Dinamarca, honrando o passado e o presente, sem nenhuma duvida a respeito do futuro, reagiram de forma desassombrada, toda vez que a Liberdade e a Democracia são ameaçadas mas não intimidadas.

Depois do assassinato dos cartunistas do Charlie, o semanário só saiu uma vez.
Depois já deviam ter circulado quatro outras edições, não saiu nenhuma. A que deveria ter ido para as bancas anteontem, quarta-feira de cinzas, foi imolada em nome da segurança. Não sei quando circularão, nem na redação do “Liberation”, podem dizer alguma coisa. Obrigado, Ozeas.
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As respostas serão publicadas aqui no rodapé das matérias. (NR).

Helio Fernandes,

Meus cumprimentos e aplausos por estar aqui, reverenciando com seus textos os saudosistas (no bom sentido) dos tempos de luta e liberdade. Fale a respeito dos Movimentos da luta armada contra o regime militar que roubou um pedaço deste Brasil. Acho que pode ser o tema principal de uma matéria. Assim ficaria melhor. O que acha? Samuel de Faria Jr. – Barueri – SP

Helio Fernandes,

Parabenizo o senhor e seus advogados que brilhantemente defenderam um direito que não e apenas seu, mas de todos aqueles assalariados e pensionistas, que a todo o momento são violentado por decisões nada saudável dos juízes trabalhistas. Vi a matéria e li a íntegra do Acórdão. Foi uma vitória jurídica sem precedente, com destaque a atuação do seu advogado Ricardo Braga e do seu procurador Roberto Pinho. O bom é que a Decisão,  agora serve de apoio jurisprudencial aos quais advogados na defesa dos seus clientes que tiverem na mesma situação. José Roberto Vilas e Silva – Rio de Janeiro – RJ

Jornalista Helio Fernandes

Cumprimento o nobre jornalista, pela brilhante decisão de desbloqueio dos seus vencimentos da União. Sou advogado e sei que enfrentar essa justiça trabalhista no primeiro e segundo graus não é fácil por ser nada complacente com empregadores.  Com isso temos decisões conflitantes e no caso absurdas. Só mesmo com paciência e atuação, indo buscar o direito no Colendo TST. Assim como perseguiu o advogado Ricardo Braga França e seu amigo e assistente-procurador Roberto Monteiro de Pinho. Mais uma vez, parabéns. Ralph Linchotti – Niterói- RJ

Senhor jornalista,

Sou sindicalista aqui em Fortaleza-CE. Aproveito para apresentar os mais efusivos cumprimentos pela vitória alcançada no TST. Li a decisão que foi publicada no site jurídico Conjur, o mais conceituado do país, onde traduz nua e crua, o drama de milhares de aposentados que diariamente são pegos de surpresa com bloqueios em suas contas de aposentaria. È chegada a hora, do Congresso votar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), prevendo dura, punição aos juízes que praticarem esse tipo de ato criminoso no campo jurídico. É a meu ver, ma barbárie sem precedente. Barbara Martins – Fortaleza – CE

Helio,

Sou advogado, e felicito o grande jornalista e pela vitória dos seus advogados na luta por seu direito. Estimo saber, que se fez justiça, graças à acertada medida extrema do Mandado de Segurança no TST. Sou advogado militante e isso fortalece meus princípios de luta pelo direito. Felix Kronig – Rio de Janeiro – RJ.

Ao Helio Fernandes,


Cumprimento,  por saber através da rede social facebook, de sua vitória jurídica no TST. È de fato muito estranho e desumano, despojar uma pessoa idosa de seus vencimentos de natureza alimentar. Nada justifica. Juízes do trabalho fazem justiça com as próprias mãos. Isso é ultrajante contra o regime Democrático, Direito, Liberdade e defesa da sociedade. Congratulo o trabalho dos seu advogado. Abraços.Maria Luzia Helena Queiroz – Belo Horizonte – MG.

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